Manual da Sobrevivente
Faça o download do PDF ou leia abaixo. Este é um trabalho voluntário, não um negócio, e sempre será. Portanto, todos os materiais aqui disponibilizados são gratuitos.
Este material foi criado de maneira empática e cuidadosa a partir da minha própria vivência de de observar a vivência de mulheres ao meu redor que passaram por situações similares. Aqui você encontrará 13 passos práticos desde entender se está ou não em um relacionamento abusivo até sua libertação e prosperidade. Tentei deixar o texto o mais inclusivo possível, e respeitoso com todas as formas de religião, estilo de vida e afetos. Ninguém precisa concordar com sua visão de mundo pra defender seu direito de viver sem violência.
Atualmente o discurso sobre relacionamentos abusivos apesar de informativo, tem sido um tanto raso. Terminar um relacionamento, ou um casamento abusivo ou violento é um completa re-estruturação da vida de uma mulher. Tanto em aspectos psíquicos quanto práticos. É como tentar sair de um labirinto onde as paredes continuam mudando de lugar constantemente e silenciosamente.
O texto se refere a você no feminino e a um parceiro abusador no masculino porque esta é a esmagadora maioria em termos estatísticos. Mas infelizmente essas dinâmicas acontecem de em todas as relações independente de gênero - e é importante lembrar-se isso.
Se eu conseguir com esse texto que pelo menos uma pessoa sofra menos, minha missão estará cumprida.
1 - Dúvida
Será que estou num relacionamento abusivo?
“Quando alguém te mostrar quem é, acredite” - Maya Angelou
Passo 1: Analise sua situação real
Por conta de como somos criadas como mulheres, é bastante provável nosso primeiro instinto seja duvidar de nós mesmas e confiar em quem amamos. Muitas pessoas que conheci ficaram presas nesse ciclo por muitos anos. E sem a certeza de que estamos sendo manipuladas, é quase impossível ter a certeza necessária para sair.
Considere a sua situação específica ao tomar todas as decisões. Eu falo a partir da minha experiencia, e das histórias que conheci na minha caminhada, mas cada situação é única, e podem ter soluções diferentes, grupos de apoio diferentes, etc.
É natural que você sinta uma ansiedade ao pensar nesse tema. Mas não deixe essa ansiedade te paralisar. Essa ansiedade é seu corpo te dizendo que existe algum perigo no seu ambiente. Esse perigo pode ser sutil, ficar no campo emocional, no campo da saúde mental, ou um medo de perder relações sociais importantes pra você… Ou ele pode ser um perigo de violência física, ou violência financeira, ou sexual… Respire fundo e acesse: qual o tipo e nível de perigo que você está? 85% das violências contra a mulher ocorrem por pessoas próximas como companheiros, ex-companheiros, pais e tios. Não “deixe pra lá”, não justifique as ações erradas do parceiro abusivo, não assuma que ele está só blefando. Porque na maioria dos casos de violência, o parceiro já havia dito que seria violento.
Você precisará treinar-se para separar, na sua mente: o que você acha que o relacionamento é, o que você gostaria que o relacionamento fosse, e o que o relacionamento realmente é. Essas são as primeiras coisas que são bagunçadas na nossa cabeça num relacionamento abusivo. E nada organiza nossa cabeça nesse momento como escrever.
- Encontre um caderno que ninguém tenha acesso ou arquivo de notas protegido por senha. Anote questões e questionamentos que você tenha. Não ponha seu nome ou o nome da pessoa se não quiser, mas registre seus pensamentos. As coisas importantes pra você. O que ele disse hoje que pode “dês dizer” amanhã. Manter anotações em segredo é o seu primeiro compromisso consigo mesma. Não precisa dizer la tudo em detalhes, deixe meio codificado se quiser… Also que voce mesma entenda e lembrará, mas que passaria despercebido por outras pessoas.
- Se for seguro, questione o outro sobre contradições, e observe o resultado. Existe em qualquer momento qualquer traço de auto responsabilidade sincera? Ou só quando convém? Ou nunca? Ele responde com agressão, aumenta o tom de voz…? Sinais ruins. Anote esses sinais.
- Quando o amanhã vier, e você se questionar de novo, volte nas suas anotações e acredite nelas. Não, você não está louca. Anote o que foi “dês dito” e deixe lá. Lembre-se desses momentos. Pergunte-se: o que ele ganhou com isso? Qual foi o real interesse nessa mudança? Se não souber, anote a pergunta e aguarde. A resposta eventualmente virá.
Nesse passo, não tome nenhuma ação ainda. Não mencione a palavra término, não mude seu comportamento abruptamente sem explicação. Seja estratégica.
Passo 2 - Eduque-se.
Pesquise sobre relacionamentos em geral, e saúde mental. Se possível, sobre a história da mulher também. O que faz um relacionamento ser saudável? Quais são as dinâmicas de gênero em relacionamentos? O que é trauma? Amplie seus horizontes de conhecimento. E isso vai te dar ferramentas e vocabulário pra entender o que está acontecendo.
- Tente ver se existem dinâmicas familiares que você aprendeu na infância que pode estar repetindo agora.
- Permita-se abrir a mente para outras maneiras de ver o mundo, mesmo que seja difícil… Busque ser o mais sincera consigo mesma possível. Sempre. E essa é uma parte extremamente difícil de você tem uma religião ou espiritualidade mais fechada. Você pode sentir como se estivesse traindo sua fé, ou traindo a Deus… Mas se o Deus que você segue é um Deus de amor e verdade, você nada tem a temer por buscar estudos que possam te ajudar a entender uma questão. Uma questão que pode estar colocando a sua vida e a vida das suas crianças (se você tiver crianças) em perigo.
Passo 3 - Encontre uma confidente confiável ou grupo de apoio
Alguém que saiba guardar segredo. Que seja sua aliada. Uma amiga real, das braba. Se for uma terapeuta, não envolvida com o context social do seu parceiro, melhor ainda. Essa pessoa tem que estar do seu lado de verdade. Essa amiga pode até te julgar um pouquinho, mas nunca te culpar ou dizer coisas que vão te machucar.
Não use essa pessoa. Não a encontre apenas para reclamar do seu relacionamento, desabafar, e ir embora voltar pros mesmos padrões de antes. Esteja lá pra ela também nos momentos difíceis - e nos bons também. Ter alguém fora da relação, com quem contar é extremamente importante.
No caso de um grupo de apoio, você encontra uma lista de Recursos Úteis no final desse documento com links para os mais diversos grupos de apoio. Alguns bem gerais, outros bem específicos.
- Antes de se abrir totalmente, teste essa pessoa… Converse sobre um caso de violência contra a mulher sobre pessoa, seja da mídia ou alguma conhecida… Veja se ela culpa a vítima ou se a defende. Veja se ela relativiza a violência… Se de maneira sincera ela demonstrar compaixão, e revolta pela injustiça, essa é uma pessoa especial e segura.
- Se você não conhecer uma pessoa assim, ou não tiver certeza, é melhor não se abrir, e seguir seu caminho de libertação de maneira solitária.
- Não confie em estranhos na internet. Se você achar grupos de apoio online que ajudem bastante, use pseudônimos, e não compartilhe informações sobre onde mora, trabalha, nada que possa te identificar. Parta do princípio de que tudo que você escreve, seja no publico ou em mensagens privadas podem um dia ser usados em tribunal - porque podem. Vamos falar disso mais pra frente nesse texto.
Pode ser que você chegue à conclusão de que seu relacionamento não é abusivo, mas também não é bom pra você. Não te acrescenta muito na vida e te custa muita energia, muito tempo… Nesse caso, terminar também é uma opção muito válida. E, provavelmente, a melhor opção. Um relacionamento deve continuar existindo somente se te acrescenta coisas positivas na vida. Porque todo relacionamento nos custa energia, tempo, trabalho… Então algo sempre deve vir dele. Você ainda pode se beneficiar de alguns dos passos seguintes.
Se você concluir de que o relacionamento em que você está é abusivo ou violento, meus sentimentos. Você não é a única, você não está ficando louca, e talvez não precise agir imediatamente. O que nos traz à próxima fase.
2 - Certeza
“Ok, estou num relacionamento abusivo, ou, no mínimo, muito ruim”
Parabéns! Uma das fases mais difíceis foi conquistada. Esse momento de compreensão é precioso, mas também, perigoso. Porque dependendo do parceiro ou parceira abusiva, seu ímpeto de liberdade pode ser visto como uma ameaça. E uma ameaça gera reações.
Passo 4 - Se possível, planeje-se!
Se você se encontrar num estado de violência imediata que pode escalar rapidamente, aja de maneira decisiva, rápida e bem-pensada. Confie nos seus instintos e na sua intuição. Mas, se você acha que é possível, que dá tempo, pense com calma: quais seriam as implicações de se terminar o relacionamento? Em termos práticos: financeiros, materiais, moradia, legais, guarda de crianças… Porque em termos emocionais, você já entendeu que só tem a ganhar.
Muitas vezes alguns ajustes são necessários antes de se tomar esse passo e isso pode levar um tempo, dependendo da sua situação. Consulte-se com advogados, ONGs e/ou terapeutas se possível sobre. O Mapa do Acolhimento pode ser um ótimo lugar pra começar. Mas garanta que a pessoa abusadora não fique sabendo que você andou fazendo perguntas do tipo.
- Certifique-se que você tem tudo em ordem para o término, em termos práticos. De tempo ao tempo para se preparar prática e emocionalmente pra isso. Continue fazendo os passos anteriores. Eles são os motores da sua liberdade.
- Tome controle das suas finanças. Violência patrimonial também é violência. Se possível, guarde dinheiro antes do término, especialmente se você for precisar dar depósito numa nova moradia. Invente uma desculpa pela qual você precisa ter as senhas das contas bancárias compartilhadas se você ainda não tiver… Seja criativa. Dê seus jeitinhos sem que ele suspeite que você está se empoderando.
- Se você planejar denunciar, saiba que alguns a lei do Brasil tem uma coisa nojenta chamada “prescrição” pra alguns delitos, que significa que você precisa abrir a denúncia / BO em ate 5 anos do dia do crime. Outros são 10 ou até 25 anos (em caso de violência contra incapaz ou menor de idade). Se você foi vítima de algo que pode ser considerado crime, informe-se de quanto tempo é essa prescrição. Esse é o seu prazo e você não precisa necessariamente correr com isso. A prescrição é algo extremamente injusto com a vítima e só se aplica a crimes de natureza íntima (sexual ou doméstica). Mas vou falar mais disso no passo 7. Nessa etapa você só precisa coletar informações e planejar o término, e saber se você precisa começar a coletar provas da violência que possam ser usadas em tribunal. Se você for por este caminho, seja extremamente cautelosa, e sempre use seu discernimento, e considere sua situação única.
- Considere a questão guarda de crianças: se vocês tem filhos juntos, isso vai requerer uma camada extra de preparação. Não abra a situação para seus filhos antes do término em si. Não coloque neles o peso de guardar esse segredo porque eles provavelmente podem não compreender a importância desse silêncio.
Passo 5: O Término
Em um contexto abusivo, você não deve a ele um término digno ou fácil. Você deve a si mesma o direito de se defender, de se proteger e se preservar o máximo possível. Se for melhor e mais seguro pra você, planeje um término a distância. Esteja em algum lugar seguro, que ele não saiba aonde e mande um áudio ou texto. Se houverem pendências jurídicas ou financeiras entre os dois, inclua no texto ou áudio do término.
- Planeje um término seguro. A execução pode ser a distância se for mais melhor pra você. Se for melhor, bloqueie a pessoa em todos os meios digitais.
- Não faça posts expondo a pessoa ou o término, ou o abuso. Nem publicamente nem em contas fechadas. Infelizmente, no Brasil, a vítima não tem proteções nesse sentido e você pode ser processada por calúnia. Se ele fizer qualquer post do tipo, certifique-se de fazer prints e autêntica-los em cartório se possível. Só os prints normais no seu celular não são provas suficientes em caso de processo sem essa autenticação.
Passo 6: Denunciar ou não denunciar?
Essa não é uma decisão simples. Especialmente no Brasil. Não tenha pressa para decidir. Saiba qual seu prazo para prescrição, e tome seu tempo pra decidir e se preparar pra isso. O momento do término ou antes do término é o pior momento pra se tomar essa decisão.
A decisão é sua no final. Mas saiba que:
- A lei atualmente não pensa na vítima, ou se importa com ela. Somente depois da lei Mariana Ferrer, que tornou-se ilegal para os estabelecimentos legais não re-vitimizarem a vítima, ou seja: não causar mais dano à vítima durante o processo de denúncia. Ainda assim, saiba que você vai ser convocada a depor e ter que contar todos os traumas e histórias diversas vezes ao longo do processo, que provavelmente vai levar anos. As pessoas que estão coletando seu depoimento não necessariamente serão acolhedoras e receptivas.
- A lei hoje foca em: acessar se houve crime, e, se houver provas suficientes, punir o agressor. A vítima, e reparações, são consideradas uma questão civil, que só pode ser feita depois que a parte criminal for concluída. São coisas separadas. A parte criminal não está nem aí pro estado emocional da vítima, que é triturada no processo.
- A maioria dos jornalistas e grandes veículos de mídia não aceitam fazer matérias sobre abuso de a vítima não denunciar. Mesmo que existam várias vítimas. Aos poucos isso está mudando.
- No caso de várias vítimas por um mesma pessoa abusiva, o caso passa a ser um caso coletivo, e ganha bastante força legalmente, mas não garante vitória.
- O sistema de denúncias atual no Brasil reproduz discriminações contra minorias: pessoas não-brancas, idosas, LGBT+, profissionais do sexo, imigrantes são alguns dos grupos mais alvo dessa discriminação. E isso geralmente se manifesta em duvidar do depoimento da vítima, distorcer relatos, ou até mesmo recusa em abrir o BO. A presença de um advogado é crucial nesses casos.
- Ter um advogado para a denúncia não é obrigatório, mas sem um, muito dificilmente o caso será levado a sério por delegacias e outras instituições. Outro fator é que consultar online o andamento do processo requer um login especial que é super burocrático de fazer quando não se tem um registro na OAB. E também te expõe muito mais em termos de saúde mental, porque não vai existir nenhuma camada entre você e os materiais que a pessoa abusiva vai apresentar em auto defesa.
- Mesmo que você não ganhe o processo, o abusador vai ganhar uma passagem pela polícia, e, dependendo do caso, algumas matérias jornalísticas com o nome dele exposto. Você não pode fazer isso nos seus posts, mas veículos de imprensa podem. Saiba que nessas matérias, ele será consultado a dar a própria visão sobre os fatos ocorridos. Ainda assim, isso pode ajudar a prevenir que ele faça novas vítimas no futuro, já que seu nome estará publicamente vinculado a violência cometida.
- Alguns dados: estima-se que somente 10% das vítimas de crimes sexuais denunciam. Dessas denúncias apenas algumas vão a júri (ou seja, saem do processo de delegacia e vão a um juiz). Dos casos que vão a júri, 90% são condenados. Porém esse número parece não ser tão grande se a pessoa abusiva é envolvido com profissões religiosas.
- Denunciar faz com que qualquer processo de intimidação, ou ameaça contra você seja suficiente para prisão preventiva. Você tem que apresentar provas dessa intimidação. Há alguns detalhes a serem considerados.
- Denunciar pode ajudar você a manter a guarda total dos filhos ou negociar questões de divórcio, dependendo do caso.
- Denunciar é um processo, longo, exaustivo, e potencialmente danoso pra sua saúde mental. Se você desenvolveu TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), por exemplo, a denúncia, e fazer com que você fique constantemente repetindo a história do trauma pode fazer com que você permaneça num estado de gatilho e hipervigilância.
Como sempre: informe-se bem, considere o seu próprio caso, e como se preparar para essa batalha, se você decidir ir por esse caminho. Eu aqui, te dou as informações chave como sobrevivente. Mas a sua jornada é única e individual. Não há uma resposta certa ou errada na questão de denunciar ou não denunciar. Isso é uma escolha sua e só sua. E honestamente não é a mais importante. A questão mais importante é que você esteja viva - e bem!
Pretendo um dia criar o Manual da Denunciante. Deixe seu email no umadenos.ghost.io e seja notificada quando sair. Meu trabalho é voluntário e sempre será.
3 - Cura
"Está feito e agora?"
“A Verdade te libertará, mas antes, ela te enfurecerá” - Gloria Steiner
Acredite: o prior já passou. Você já “venceu” quando conseguiu se libertar do relacionamento abusivo. Agora, é hoje de cuidar de si, entrar na caverna, e criar um ambiente que permita que você se regenere.
Talvez nesse momento você ache que você nunca mais será a mesma, ou que algo muito precioso dentro de você foi destruído e nunca mais pode ser recuperado. Mas, acredite, a capacidade de regeneração da natureza é absurda, e existe também em você. Sim, pode ser que algumas cicatrizes fiquem, mas não existe tecido mais forte no corpo humano do que o tecido de cicatriz. E que garrafa quebrada é muito mais perigosa do que uma inteira.
Passo 8: Lidando com Revolta e Fúria
A maioria das mulheres ao se libertarem de um relacionamento abusivo e começarem seu processo de autocuidado, experienciam em maior ou menor grau um momento de raiva como nunca antes. É natural, comum e saudável que você sinta uma quantidade abismal de ódio e fúria em algum momento do seu processo de libertação. Até Jesus também teve seu momento em que pegou o chicote e começou a punir os mercadores da fé.
A Fúria é um sentimento que foi demonizado pelas religiões patriarcais, mas é respeitada pela espiritualidade de outras origens, como em Bhairavi Devi, Kali no Hinduísmo, ou como algumas Taras no Budismo, ou em algumas histórias de orixás nas linhas de Axé.
A fúria idealmente, deve ser usada como um motor de transformação. E como todo motor, ela precisa de lubrificação, manutenção - e descanso. Não podemos permanecer eternamente nesse estado.
Eu sugiro fortemente que você use essa fúria para criar uma nova vida pra você: nova carreira, novo lar, novos propósitos de vida… Mas quando você se encontrar num ambiente estável e seguro (o que pode ser que leve um tempo até você achar), permita-se sair desse “modo sobrevivência”. Porque ele vem com altas doses de adrenalina e cortisol, e quando prolongado isso tem consequências nefastas na sua saúde.
- Use os sentimentos de fúria para construir uma vida nova e sustentável para si: carreira, habitação, propósitos de vida... Não precisa ser definitivo, mas precisa ser estável.
- Evite novos relacionamentos nessa fase. O momento certo vai vir. Você precisa priorizar encontrar ou criar um ambiente saudável e seguro antes disso.
- Invista mais em amizades com mulheres, reconectar-se com pessoas e espaços que você se distanciou lá atrás quando começou o relacionamento abusivo.
- Exercite-se! Aula de box, musculação, yoga, danças… Essa é uma fase incrível pra suar, colocar a energia pra fora, correr, caminhar… Isso vai ser um bálsamo pro seu corpo e pra suas emoções.
Passo 9: Terapia, saúde e virilidade
Quando você sentir que encontrou um espaço seguro e saudável para si, vai ser momento de sair do “estado de sobrevivência”. Esse é o momento em que você precisa começar a acolher a sua vulnerabilidade, a sua criança interior, a sua adolescente interior…
Eu acredito que essa seja a fase mais difícil para uma sobrevivente, porque as vezes a gente tem que ser forte constantemente pra sobreviver. E confrontar a dor é confrontar o trauma. E confrontar o trauma é reviver o trauma. Por isso que a gente precisa usar a fúria pra criar uma vida nova e achar esse ambiente realmente seguro.
Esse é o momento de pensar em um tratamento de longo prazo pra Ansiedade ou TEPT, ou Depressão, ou o que quer que você tenha experienciado nos últimos tempos. Fazer esse passo bem feito pode demorar alguns anos, mas vai te dar base para uma vida maravilhosa no futuro. Mais do que sobreviver: prosperar.
- Crie um plano de autocuidado para si. Use métodos terapêuticos comprovados e com profissionais que sejam qualificados para lidar com trauma especificamente. Se o profissional tiver qualificação ou especialização em violência de gênero, ou violência sexual, melhor ainda. Se você tiver algum tipo de conexão espiritual, esse é o momento. A prática de fé de forma solitária pode ser linda e absolutamente abençoada. Mas, se você quiser praticar sua fé dentro de um grupo, se certifique que onde você irá frequentar eles são um ambiente seguro para você - tanto em não ficar passando informações da sua vida pro seu ex, quanto em termos filosóficos. Se eles oprimem mulheres, culpabilizam vítimas, ou são contra as vítimas denunciarem, isso não é um ambiente seguro pra você. Geralmente, religiões patriarcais (que se referem a Deus somente no masculino), não são tradicionalmente ambientes seguros nesse aspecto. Mas você que conhece sua realidade, não eu. Teste esse ambiente com as mesmas dicas sobre encontrar uma amiga confidente no passo 3.
- Experimente diferentes terapeutas ou formas de espiritualidade antes de se comprometer com uma. Faça perguntas na primeira sessão. Se você for mulher, e/ou uma pessoa negra, e/ou LGBT, etc, certifique-se de que aquele terapeuta (ou ambiente) está suficientemente informado, e preparado pra lidar com as questões típicas da sua identidade, e que você estará psicologicamente segura com essa pessoa.
- Nutra bem seu corpo, durma o máximo que conseguir, encontre seu equilíbrio. O stress e a ansiedade tem uma parte corporal real e comprovada cientificamente. O sono é seu melhor aliado. Inclusive pode ser que nessa fase você sinta necessidade de dormir e descansar uma quantidade de horas absurda. Permita-se! Essa é a sabedoria de regeneração da natureza se manifestando dentro do seu corpo. Celebre esse descanso!
- A missão principal dessa fase é te encaminhar a um estado de novo equilíbrio, livre de hiper-dependência e hiper-vigilância.
- Pode ser que você se engane nessa fase. Que você seja decepcionada por um terapeuta, ou algum grupo religioso novo que você tente, ou que relações de antes já não te sirvam mais. Esse é um momento de um pouco de fragilidade. E tudo bem. É parte da sua trajetória. Não deixe que isso te desmotive a buscar uma vida melhor pra você.
- Essa ainda não é uma boa fase para novos relacionamentos. Permita-se se dar um tempo focada em você mesma. Você provavelmente vai descobrir quanto mais energia você tem longe de quem te abusa e te oprime. Sua carreira pode decolar aqui, ou sua arte, ou o que quer que seja importante pra você e você dedique energia. Espere até ter uma estrutura de vida e de identidade mais sólida antes de tentar se envolver de novo.
4 - Liberdade
"Todo fim é um novo começo"
Foi uma longa jornada até aqui. Eu poderia parar por aqui porque nesse estágio, você já estaria num bom caminho, e liberta. Mas eu quero que você não só sobreviva. Eu quero que você super viva!
Passo 10: abrindo-se novamente para o Prazer
Se até esta etapa você ainda não descobriu as delícias do corpo, sexuais ou não, este é um ótimo momento. Prazer não é só sexo: é massagem, é gastronomia, é arte, é cultura, é dança. E é sexo também. Principalmente com as práticas “solo”, em casa. Não pule essa etapa. Antes de convidar outros pra sua intimidade, esteja você consigo mesma.
Respeite sempre seus gostos e seu tempo. Explorar o Prazer é profundamente curativo e vai te ajudar sair do “modo sobrevivência”. Pesquisas mostram que dançar é o tratamento mais eficaz contra a depressão, por exemplo. Mais até do que anti depressivos. Continue seu processo de terapia e regeneração, mas quando se sentir segura, adicione hábitos de Prazer.
- Encontre fontes saudáveis de prazer e permita-se senti-las. Com frequência.
Passo 11: abrindo-se para o Amor
Coloquei Prazer e Amor separados é uma distinção importante. Nesse passo, a gente se abre para o outro novamente. É um risco. É uma jornada. E quando falo em Amor, não falo só Amor romântico não. Falo de amizades profundas, de comunidade, de família.
Eu só recomendo explorar novos relacionamentos se você sentir que sua vida sozinha é gostosa, é sustentável, é alegre. Isso vai ajudar a prevenir que você caia em outras ciladas.
Quando você sentir que está numa fase estável e positiva de vida, se quiser, abra-se pra novos relacionamentos. Mas lembre-se de que o relacionamento tem que funcionar para você. E não você funcionar para o relacionamento.
Não tenha pressa em se abrir, ou confiar em outrem. Vá no seu tempo. Tenha uma comunicação clara com a pessoa sobre suas expectativas e condições pro relacionamento.
- Defina o que é amor pra você. Escreva se possível.
- Escreva o que você espera de uma relação. Seja sincera. Depois, analise: uma relação pode se fato trazer essas coisas que você escreveu?
- Escreva o que considera um relacionamento saudável. E quais são os seus limites (o que você não vai tolerar). Se você iniciar uma relação com alguém no futuro que parecer mais séria, talvez peça que a pessoa escreva o mesmo e comparem juntos as similaridades e diferenças.
Passo 12: Vitória
Que alegria você chegar aqui!
Nesse estágio, os gatilhos e pensamentos intrusivos são uma raridade, não o cotidiano. Você só pensa nos contextos de trauma raramente, e gatilhos antigos já não tem mais o mesmo impacto em você. Parecia impossível algum tempo atrás. Mas cá está você, vitoriosa.
De tempos em tempos pode ser que você tenha que fazer alguma manutenção leve dos passos anteriores, mas na prática, você sobreviveu e super viveu. Pra mim, isso demorou alguns anos, mas veio. E acho muito importante dizer que isso vem.
Cicatrizes são o tecido mais forte do corpo. Marcas de batalhas bem lutadas e de uma vida bem vivida. Tenha orgulho das suas. Ande pela vida com a cabeça erguida e a confiança de quem, em vida, passou por um inferno, e voltou.
Passo 13: Devolvendo à comunidade
Muitas de nós passamos por isso. Somos mais regra que exceção. E isso não se dá por questões `naturais´. Isso foi construído historicamente, pela cultura, pela sociedade… Mas nós também somos a sociedade. E podemos contribuir para desconstruir esses sistemas de violência.
Se todas as vitimas de abuso doassem um pouco de seu tempo, energia ou recursos contra essa luta, veríamos uma grande evolução na sociedade.
Há muitas maneiras de se fazer isso:
- Participando de organizações locais contra a violência de qualquer tipo
- Auxiliando suas amigas que também estejam nas suas próprias jornadas de sair de situações de violência
- Participando de protestos pelos direitos humanos
- Financiando ou sendo voluntária em projetos, casas de apoio e ONGs
- Pressionando políticos pela aprovação do Estatuto da Vítima, que prevê que todas as vítimas de quaisquer crimes tenham acesso a saúde mental e reparações.
Recursos Úteis
Emergências com atenção gratuita 24:
Disque 100 - https://www.gov.br/pt-br/servicos/denunciar-violacao-de-direitos-humanos
Disque 190 - Polícia Militar
Disque 180: para abrir um BO anonimamente, mas quando não se precisa de atuação imediata
https://www.gov.br/mulheres/pt-br/ligue180
Instituto Maria da Penha
https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/tipos-de-violencia.html
COAME - Combate ao Abuso no Meio Espiritual
https://www.facebook.com/coamebr/?locale=pt_BR
Estatuto da Vitima
https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2258347&fichaAmigavel=nao
Defensorias Públicas:
https://www.anadep.org.br/wtk/pagina/defensorias_nacionais
Ministério Público de São Paulo
Conselho Nacional Popular LGBTI+
https://conselhopopularlgbti.blogspot.com/
Casa1 - Acolhimento LGBTI+
https://www.portaldoimpacto.com/11-ongs-que-trabalham-para-e-com-pessoas-lgbtqia-
Projeto Penhas - Az Mina
https://azmina.com.br/projetos/penhas/
Mapa do Acolhimento
https://www.mapadoacolhimento.org/
https://www.mapadoacolhimento.org/servicos-publicos/
Coalizão Negra por Direitos
https://coalizaonegrapordireitos.org.br/sobre/
VNDI - Vidas Negras com Deficiência Importam
https://vidasnegrascomdeficiencia.org/
Coletivo Sobreviventes (para servidoras públicas)
https://www.instagram.com/coletivo_sobreviventes/
Instituto Pró-Vítima
Grupo Vítimas Unidas
https://www.facebook.com/groups/vitimasunidas/
Dra. Maria do Carmo Santos
professoramcunir@gmail.com
Projeto Justiceiras
https://www.justiceiras.org.br/
https://www.instagram.com/justiceirasoficial/
Movimento COAME - Combate ao Abuso no Meio Espiritual
coamestopabuse@protonmail.com
https://www.facebook.com/coamebr/
Instituto Patricia Galvão
https://agenciapatriciagalvao.org.br/sobre-o-instituto/
MeToo Brasil
https://metoobrasil.org.br/preciso-de-ajuda
Busca de Pessoas Desaparecidas
https://www.instagram.com/maesdase/
Exterior:
Grupo GAMBE - Grupo de Apoio a Mulheres Brasileiras no Exterior
https://www.instagram.com/grupogambe/
iLGA - LGBTI+ - Portugal
Casa Qui - LGBTI+ Portugal
Projeto Brasileiras Não Se Calam
https://www.instagram.com/brasileirasnaosecalam/
https://brasileirasnaosecalam.com/
Contatos na Europa para mulheres em situação de violência, dividido por país:
https://wave-network.org/wp-content/uploads/List-of-national-womens-helplines-2025.pdf
Plataforma Geni - Portugal - para mulheres brasileiras
https://plataformageni.wordpress.com/
https://www.instagram.com/geni_projetossociais/
LAWA - Inglaterra
https://lawadv.org.uk/pt-br/sobre-a-lawa/
Telefone: 020 7275 0321
E-mail: info@lawadv.org.uk
LAWARS - Inglaterra
https://portugues.lawrs.org.uk/about/
ligação gratuita: 0808 145 4909
referrals@lawrs.org.uk (Violência doméstica)
counsellingreferrals@lawrs.org.uk (Psicoterapia)
The Dash Charity - Inglaterra
https://thedashcharity.org.uk/
Inglaterra
Linha de Ajuda Nacional contra violência doméstica 0808 2000 247.
Consulados e Embaixadas brasileiras tem telefones de emergência:
O plantão consular global do Ministério das Relações Exteriores para emergências graves no exterior é o telefone +55 61 98260-0610. Este número opera 24 horas por dia e deve ser acionado exclusivamente para casos de vida ou morte, prisão ou emergências humanitárias envolvendo cidadãos brasileiros fora do país. E email: dac@itamaraty.gov.br
Estados Unidos:
https://www.safehorizon.org/es/
https://www.disasterassistance.gov/es/obtener-asistencia/forma-de-asistencia/5937
https://espanol.thehotline.org/
https://espanol.womenshealth.gov/relationships-and-safety/get-help/state-resources
https://www.justice.gov/es/enrd/ayuda-y-recursos-para-v-ctimas